Opinião

A Falsa Inclusão: Quando as Políticas Públicas Escolhem Quem Incluir

Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor

27/08/2026

A discussão sobre a inclusão de pessoas com deficiência na sociedade é urgente e necessária. É indiscutível que todas as pessoas que vivem com algum tipo de limitação física, sensorial ou intelectual enfrentam barreiras diárias e precisam de políticas públicas eficientes, que não apenas promovam a conscientização da população, mas que garantam acessibilidade real. No entanto, o modo como esse direito vem sendo trabalhado pelo poder público revela um problema crescente: o direcionamento seletivo da atenção governamental.

Em diversas esferas, percebe-se que prefeituras e governos entenderam a importância de agir, mas optaram por concentrar quase a totalidade de suas iniciativas em um grupo específico. Atualmente, presenciamos uma onda de projetos voltados majoritariamente para pessoas no espectro autista e crianças atípicas. É crucial pontuar que essa população merece, sim, todo o respeito, investimento e cuidado prestados. A crítica não reside no apoio concedido ao autismo, mas no abandono deliberado das demais deficiências. Quando o Estado cria espaços e projetos exclusivos para um perfil e negligencia outros, ele não promove a inclusão; ele institucionaliza uma nova forma de discriminação.

Essa postura muitas vezes escancara uma lógica eleitoreira. O poder público passa a priorizar pautas de maior apelo popular ou visibilidade social, visando a margem de votos, em vez de cumprir o dever constitucional de garantir acessibilidade universal.

A cidade de Franca, no interior de São Paulo, serve como um retrato claro dessa assimetria. O município tem se destacado pela criação de políticas públicas, centros de tratamento e espaços de convivência especializados para autistas, o que representa um avanço importante. Contudo, ao mesmo tempo em que comemora essas conquistas, a cidade deixa a desejar na atenção prestada às pessoas com deficiência visual.

A realidade vivida por deficientes visuais totais e pessoas com baixa visão em Franca evidencia a falta de um olhar abrangente sobre a acessibilidade. Para que existisse uma inclusão verdadeira na cidade, diversas medidas básicas poderiam ser implementadas. A instalação de semáforos sonoros nos principais cruzamentos e vias de grande fluxo é um exemplo fundamental de autonomia e segurança que ainda falta no dia a dia do município. Da mesma forma, faltam pisos táteis contínuos e sem obstáculos nas calçadas públicas e no acesso aos serviços essenciais.

Outro ponto crítico é a ausência de recursos adequados nas escolas municipais e repartições públicas, que carecem de materiais impressos em Braille, leitores de tela atualizados e servidores treinados para o atendimento prestado a esse público. Para além da infraestrutura, falta o principal: a participação ativa de quem vive a deficiência visual no planejamento da cidade. Sem a presença dessas pessoas dentro da Prefeitura e nos conselhos municipais para nortear as decisões, as ações continuam sendo paliativas ou inexistentes.

Não é possível falar em cidade inclusiva quando uma parcela expressiva de seus cidadãos é deixada para trás. A verdadeira acessibilidade não escolhe diagnósticos nem divide prioridades por conveniência política. Franca e demais municípios precisam entender que garantir direitos a um grupo não pode significar o apagamento de outro. A inclusão só é real quando serve a todos.

*Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Publisher da Amplinews e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.