29/08/2026
A indústria de calçados do Brasil atravessou um marco divisor de águas em sua história recente. Pela primeira vez em quase 3 décadas, o país registrou um saldo negativo na balança comercial do setor, importando um volume financeiro maior de sapatos, sandálias e chinelos do que aquele obtido com as vendas para o mercado externo. Esse cruzamento inédito entre as curvas de importação e exportação ocorreu no mês de julho, acendendo um sinal de alerta vermelho entre os fabricantes nacionais e representantes do setor produtivo.
Os dados compilados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, com base nas informações oficiais disponibilizadas pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, revelam que no mês de julho o Brasil importou o equivalente a US$ 66 milhões em calçados. No mesmo período, as exportações brasileiras do setor alcançaram US$ 62 milhões. Essa diferença gerou um déficit mensal de aproximadamente US$ 4 milhões, interrompendo um histórico de superávits que se mantinha sólido desde pelo menos o ano de 1997, quando teve início a medição da série histórica.
Embora o saldo negativo mensal de julho represente um choque para o setor, a virada na balança comercial reflete uma tendência que já vinha se desenhando ao longo dos últimos anos. A receita gerada com o envio de produtos brasileiros para o exterior vem enfrentando retração gradual, ao mesmo tempo em que a entrada de calçados estrangeiros no mercado consumidor interno apresenta uma trajetória constante de expansão desde o início da última década.
No acumulado dos 7 primeiros meses do ano, entre os meses de janeiro e julho, o total investido pelo país na compra de calçados vindo do exterior somou US$ 373 milhões. Esse montante refere-se à entrada de cerca de 30 milhões de pares de calçados, o que representa um crescimento de 10% em relação ao valor registrado no mesmo período do ano anterior. Por outro lado, as exportações brasileiras acumuladas no ano atingiram US$ 470 milhões. Embora o acumulado anual ainda permaneça positivo devido aos resultados obtidos nos primeiros meses, o valor acumulado das vendas externas teve uma queda expressiva de 18% na receita em comparação com o ano anterior.
O movimento desfavorável enfrentado pelo mercado produtivo nacional resulta do impacto combinado de duas forças mercadológicas simultâneas. De um lado, ocorre uma retração acentuada na compra de calçados brasileiros por parte dos 2 principais parceiros comerciais do setor: os Estados Unidos e a Argentina. Do outro lado, o mercado brasileiro lida com o avanço acelerado da entrada de mercadorias produzidas a custos mais baixos no continente asiático, especialmente oriundas da China, do Vietnã e da Indonésia.
No cenário das exportações, a crise nos principais destinos internacionais reduziu substancialmente a presença dos produtos fabris brasileiros. A receita obtida com os embarques destinados ao mercado norte-americano teve um recuo de 25%. A situação no comércio com a Argentina apresentou uma retração ainda mais severa, registrando uma queda de 58% nas receitas das empresas exportadoras. Essa diminuição drástica no volume de compras por parte dos vizinhos platinos e dos compradores americanos deixou o setor com excedentes operacionais e com menos opções de escoamento no comércio global.
Ao mesmo tempo em que os envios ao exterior encolheram, as fronteiras brasileiras registraram maior volume de entrada de calçados fabricados na Ásia. Apenas na relação comercial com a China, entre os meses de janeiro e julho, o Brasil importou o equivalente a US$ 31 milhões, volume que corresponde a 10 milhões de pares de calçados. Esse valor representa uma alta de 13% em receita e uma expansão expressiva de 26,8% no número total de peças físicas que entraram no território nacional vindas do parque fabril chinês.
Um aspecto fundamental para compreender a dinâmica desse déficit financeiro em julho reside na diferença substancial entre o preço médio dos calçados importados e daqueles que o Brasil envia para fora. Em termos de volume de unidades, o país continuou vendendo mais pares do que comprando no mês de julho. Foram exportados 6,28 milhões de pares produzidos por empresas nacionais, enquanto a entrada de produtos importados ficou em 4 milhões de pares.
Contudo, a diferença nos preços médios praticados nas duas pontas provocou o desequilíbrio financeiro final. O valor médio de cada par importado pelo Brasil atingiu US$ 16,29, enquanto o preço médio do par vendido pela indústria nacional para o exterior ficou fixado em US$ 9,92. Essa assimetria nos preços médios fez com que, mesmo movimentando um número menor de produtos físicos, a fatura paga pelas importações superasse a receita recebida pelas exportações.
Diante do cenário de perda de espaço das empresas brasileiras no exterior e da crescente participação de competidores internacionais na vitrine nacional, a entidade que representa as indústrias do setor demonstrou forte preocupação com os rumos do emprego e da produção local. O presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Haroldo Ferreira, destacou que os produtos estrangeiros não estão ingressando no país para suprir um crescimento da demanda das famílias brasileiras, mas sim para ocupar uma fatia de mercado que vinha sendo atendida tradicionalmente pelas fábricas instaladas no território nacional.
Segundo o posicionamento do setor produtivo, a substituição da mercadoria fabricada internamente por calçados importados ameaça a preservação e a geração de postos de trabalho nas regiões onde o setor calçadista possui grande representatividade econômica, como em polos industriais localizados nos estados do Rio Grande do Sul, Ceará, São Paulo e Minas Gerais. A retração de mercados importantes para os polos gaúcho e nordestino agrava a necessidade de proteção da capacidade operacional dessas indústrias.
Para conter o avanço das importações e buscar um reequilíbrio nas condições de disputa competitiva, a associação da classe encaminhou ao Governo Federal pedidos formais de aplicação de salvaguardas e barreiras comerciais. Entre as medidas solicitadas pela entidade empresarial está a fixação de cotas para conter a importação convencional de calçados provenientes da Ásia. O objetivo alegado pelas empresas é estabelecer uma pausa de ajustamento na dinâmica de mercado, permitindo que a indústria calçadista nacional consiga redirecionar para o próprio mercado consumidor brasileiro a produção que deixou de ser absorvida pelos clientes dos Estados Unidos e da Argentina.