{"id":408,"date":"2026-08-29T09:09:08","date_gmt":"2026-08-29T12:09:08","guid":{"rendered":"https:\/\/amplinews.com.br\/?p=408"},"modified":"2026-08-29T09:09:08","modified_gmt":"2026-08-29T12:09:08","slug":"resultado-negativo-pela-primeira-vez-em-30-anos-volume-de-importacoes-de-calcados-e-maior-que-exportados-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/orconpress.com.br\/?p=408","title":{"rendered":"Resultado negativo: Pela primeira vez em 30 anos, volume de importa\u00e7\u00f5es de cal\u00e7ados \u00e9 maior que exportados no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>29\/08\/2026<\/p>\n<p>A ind\u00fastria de cal\u00e7ados do Brasil atravessou um marco divisor de \u00e1guas em sua hist\u00f3ria recente. Pela primeira vez em quase 3 d\u00e9cadas, o pa\u00eds registrou um saldo negativo na balan\u00e7a comercial do setor, importando um volume financeiro maior de sapatos, sand\u00e1lias e chinelos do que aquele obtido com as vendas para o mercado externo. Esse cruzamento in\u00e9dito entre as curvas de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o ocorreu no m\u00eas de julho, acendendo um sinal de alerta vermelho entre os fabricantes nacionais e representantes do setor produtivo.<\/p>\n<p>Os dados compilados pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Cal\u00e7ados, com base nas informa\u00e7\u00f5es oficiais disponibilizadas pela Secretaria de Com\u00e9rcio Exterior do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento, Ind\u00fastria, Com\u00e9rcio e Servi\u00e7os, revelam que no m\u00eas de julho o Brasil importou o equivalente a US$ 66 milh\u00f5es em cal\u00e7ados. No mesmo per\u00edodo, as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras do setor alcan\u00e7aram US$ 62 milh\u00f5es. Essa diferen\u00e7a gerou um d\u00e9ficit mensal de aproximadamente US$ 4 milh\u00f5es, interrompendo um hist\u00f3rico de super\u00e1vits que se mantinha s\u00f3lido desde pelo menos o ano de 1997, quando teve in\u00edcio a medi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Embora o saldo negativo mensal de julho represente um choque para o setor, a virada na balan\u00e7a comercial reflete uma tend\u00eancia que j\u00e1 vinha se desenhando ao longo dos \u00faltimos anos. A receita gerada com o envio de produtos brasileiros para o exterior vem enfrentando retra\u00e7\u00e3o gradual, ao mesmo tempo em que a entrada de cal\u00e7ados estrangeiros no mercado consumidor interno apresenta uma trajet\u00f3ria constante de expans\u00e3o desde o in\u00edcio da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>No acumulado dos 7 primeiros meses do ano, entre os meses de janeiro e julho, o total investido pelo pa\u00eds na compra de cal\u00e7ados vindo do exterior somou US$ 373 milh\u00f5es. Esse montante refere-se \u00e0 entrada de cerca de 30 milh\u00f5es de pares de cal\u00e7ados, o que representa um crescimento de 10% em rela\u00e7\u00e3o ao valor registrado no mesmo per\u00edodo do ano anterior. Por outro lado, as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras acumuladas no ano atingiram US$ 470 milh\u00f5es. Embora o acumulado anual ainda permane\u00e7a positivo devido aos resultados obtidos nos primeiros meses, o valor acumulado das vendas externas teve uma queda expressiva de 18% na receita em compara\u00e7\u00e3o com o ano anterior.<\/p>\n<p>O movimento desfavor\u00e1vel enfrentado pelo mercado produtivo nacional resulta do impacto combinado de duas for\u00e7as mercadol\u00f3gicas simult\u00e2neas. De um lado, ocorre uma retra\u00e7\u00e3o acentuada na compra de cal\u00e7ados brasileiros por parte dos 2 principais parceiros comerciais do setor: os Estados Unidos e a Argentina. Do outro lado, o mercado brasileiro lida com o avan\u00e7o acelerado da entrada de mercadorias produzidas a custos mais baixos no continente asi\u00e1tico, especialmente oriundas da China, do Vietn\u00e3 e da Indon\u00e9sia.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio das exporta\u00e7\u00f5es, a crise nos principais destinos internacionais reduziu substancialmente a presen\u00e7a dos produtos fabris brasileiros. A receita obtida com os embarques destinados ao mercado norte-americano teve um recuo de 25%. A situa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio com a Argentina apresentou uma retra\u00e7\u00e3o ainda mais severa, registrando uma queda de 58% nas receitas das empresas exportadoras. Essa diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica no volume de compras por parte dos vizinhos platinos e dos compradores americanos deixou o setor com excedentes operacionais e com menos op\u00e7\u00f5es de escoamento no com\u00e9rcio global.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que os envios ao exterior encolheram, as fronteiras brasileiras registraram maior volume de entrada de cal\u00e7ados fabricados na \u00c1sia. Apenas na rela\u00e7\u00e3o comercial com a China, entre os meses de janeiro e julho, o Brasil importou o equivalente a US$ 31 milh\u00f5es, volume que corresponde a 10 milh\u00f5es de pares de cal\u00e7ados. Esse valor representa uma alta de 13% em receita e uma expans\u00e3o expressiva de 26,8% no n\u00famero total de pe\u00e7as f\u00edsicas que entraram no territ\u00f3rio nacional vindas do parque fabril chin\u00eas.<\/p>\n<p>Um aspecto fundamental para compreender a din\u00e2mica desse d\u00e9ficit financeiro em julho reside na diferen\u00e7a substancial entre o pre\u00e7o m\u00e9dio dos cal\u00e7ados importados e daqueles que o Brasil envia para fora. Em termos de volume de unidades, o pa\u00eds continuou vendendo mais pares do que comprando no m\u00eas de julho. Foram exportados 6,28 milh\u00f5es de pares produzidos por empresas nacionais, enquanto a entrada de produtos importados ficou em 4 milh\u00f5es de pares.<br \/>\nContudo, a diferen\u00e7a nos pre\u00e7os m\u00e9dios praticados nas duas pontas provocou o desequil\u00edbrio financeiro final. O valor m\u00e9dio de cada par importado pelo Brasil atingiu US$ 16,29, enquanto o pre\u00e7o m\u00e9dio do par vendido pela ind\u00fastria nacional para o exterior ficou fixado em US$ 9,92. Essa assimetria nos pre\u00e7os m\u00e9dios fez com que, mesmo movimentando um n\u00famero menor de produtos f\u00edsicos, a fatura paga pelas importa\u00e7\u00f5es superasse a receita recebida pelas exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Diante do cen\u00e1rio de perda de espa\u00e7o das empresas brasileiras no exterior e da crescente participa\u00e7\u00e3o de competidores internacionais na vitrine nacional, a entidade que representa as ind\u00fastrias do setor demonstrou forte preocupa\u00e7\u00e3o com os rumos do emprego e da produ\u00e7\u00e3o local. O presidente-executivo da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de Cal\u00e7ados, Haroldo Ferreira, destacou que os produtos estrangeiros n\u00e3o est\u00e3o ingressando no pa\u00eds para suprir um crescimento da demanda das fam\u00edlias brasileiras, mas sim para ocupar uma fatia de mercado que vinha sendo atendida tradicionalmente pelas f\u00e1bricas instaladas no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p>Segundo o posicionamento do setor produtivo, a substitui\u00e7\u00e3o da mercadoria fabricada internamente por cal\u00e7ados importados amea\u00e7a a preserva\u00e7\u00e3o e a gera\u00e7\u00e3o de postos de trabalho nas regi\u00f5es onde o setor cal\u00e7adista possui grande representatividade econ\u00f4mica, como em polos industriais localizados nos estados do Rio Grande do Sul, Cear\u00e1, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. A retra\u00e7\u00e3o de mercados importantes para os polos ga\u00facho e nordestino agrava a necessidade de prote\u00e7\u00e3o da capacidade operacional dessas ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>Para conter o avan\u00e7o das importa\u00e7\u00f5es e buscar um reequil\u00edbrio nas condi\u00e7\u00f5es de disputa competitiva, a associa\u00e7\u00e3o da classe encaminhou ao Governo Federal pedidos formais de aplica\u00e7\u00e3o de salvaguardas e barreiras comerciais. Entre as medidas solicitadas pela entidade empresarial est\u00e1 a fixa\u00e7\u00e3o de cotas para conter a importa\u00e7\u00e3o convencional de cal\u00e7ados provenientes da \u00c1sia. O objetivo alegado pelas empresas \u00e9 estabelecer uma pausa de ajustamento na din\u00e2mica de mercado, permitindo que a ind\u00fastria cal\u00e7adista nacional consiga redirecionar para o pr\u00f3prio mercado consumidor brasileiro a produ\u00e7\u00e3o que deixou de ser absorvida pelos clientes dos Estados Unidos e da Argentina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>29\/08\/2026 A ind\u00fastria de cal\u00e7ados do Brasil atravessou um marco divisor de \u00e1guas em sua hist\u00f3ria recente. 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